Análise do livro Mari Madóglio- trabalhadora e sindicalista, por Raquel Wzorek
- Andréa Luiza da Silveira

- 29 de jun.
- 4 min de leitura

Ao ler este livro, tive a sensação de acompanhar uma história que ia se revelando aos poucos, sem pressa em uma leitura muito fluida. Como psicóloga existencialista logo no início fui identificando os aspectos do método progressivo-regressivo na forma como a autora apresenta a proto-história da biografada. A Andrea depois nos conduz pela infância de Mari, pela vida na roça, pela migração para Chapecó, pelo trabalho no frigorífico e pela atuação sindical de uma forma que faz com que a gente vá conhecendo os contextos e os caminhos de Mari.
E nesse movimento aparecem os valores da família Madoglio engendrados nesses diferentes contextos. Partindo da compreensão de que o projeto de ser se constrói a partir das mediações concretas e simbólicas nas situações de origem, a autora busca compreender quais foram as condições de possibilidade para que Mari se projetasse no mundo. Para além das descrições quase poéticas sobre infâncias singulares, o que mais me chamou atenção nessa parte é o entrave ao desejo de estudar. As condições de trabalho e moradia limitaram suas possibilidades. Mas ao mesmo tempo, os valores relacionados ao ser e fazer no mundo, ou seja, à solidariedade comunitária e à religiosidade também vão engendrando determinados desejos de ser e realizações em curso.
Esses mesmos elementos aparecerão posteriormente em seus outros perfis de ser, tanto no de trabalhadora quanto em sua trajetória como sindicalista. Na infância o estudo permanece como desejo, mas subordinado às condições concretas de existência. E é o frigorífico que acaba por oferecer justamente aquilo que Mari desejava desde a infância: a conclusão dos estudos, a formação técnica, a possibilidade de ascensão profissional e o reconhecimento de suas ações como trabalhadora. Nesse sentido, o trabalho apresenta-se como realização de aspirações que haviam encontrado obstáculos ao longo de sua trajetória. O frigorífico surge, a princípio como condição de possibilidade da realização do seu desejo de ser.
Seu projeto e desejo passa por ser uma boa trabalhadora: competente, produtiva, confiável e reconhecida pelos colegas e pela empresa e pela chefia. Inicialmente a velocidade intensa da produção e as consequências disso no corpo é vivido como uma luta pessoal: quando acumula produtos na esteira, ela se esforça mais, tenta não "levar um show" da máquina.
Mediante esses esforços Mari recebe funções de confiança e reconhecimento por parte da empresa e das chefias. Suas novas funções mais leves e técnicas parecem ir dando condições para uma compreensão até então não explícita para Mari: a exploração dos trabalhadores. A mesma organização que oferece oportunidades é aquela que exige ritmos intensos de trabalho e que, gradualmente, produz adoecimento aos seus colegas de trabalho.
Mari vai gradualmente a perceber que a realidade do frigorífico contraria os próprios valores que inicialmente a fizeram a trabalhar com afinco. A trajetória de Mari evidencia a ambiguidade da experiência do trabalho. Nesse ponto, lembrei-me de uma passagem de Sartre em que ele afirma que não são os sofrimentos, por si só, que produzem a transformação. O que produz mudança é a possibilidade de conceber outro estado de coisas. Quando surge um novo horizonte de possibilidades — através da organização coletiva, da ação sindical, das lutas por direitos e da implementação da NR-36, as pausas, etc — uma nova luz ilumina a situação vivida, e aquilo que antes era visto como “natural” passa a ser reconhecido como injusto e insuportável.
É nesse movimento que o projeto de ser de Mari ganha um novo rumo, deslocando-se da adaptação individual às exigências da empresa para o engajamento na transformação coletiva das condições de trabalho. Experiências que inicialmente eram vividas na solidão do corpo passam a ser compreendidas como expressão de condições históricas e coletivas.
Como afirma Mari, a promessa de reconhecimento pelo alcance de metas se revelava uma ilusão: os trabalhadores dedicavam-se intensamente ao trabalho e, em troca, frequentemente terminavam adoecidos e "arrebentados". A compreensão dessa contradição contribui para sua passagem de trabalhadora dedicada à organização para sujeito engajado na luta coletiva.
Outra coisa que me chamou atenção é que após represálias por participar do sindicato e de colocarem Mary de novo no serviço pesado, “o pauleirão", o sofrimento é vivido de forma singular, Mari sente dores, trabalha sob ritmo intenso e enfrenta jornadas exaustivas. Talvez o aspecto que mais me mobilizou como psicóloga tenha sido a relação de Mari com seu próprio sofrimento. Ela reconhece o adoecimento dos trabalhadores, participa das lutas por melhores condições de trabalho, vê colegas adoecerem e compreende a importância das transformações conquistadas. A frase "quando eu tenho dor, eu faço de conta que não tenho dor" é muito significativa, durante anos, Mary ultrapassa os limites do próprio corpo. Penso que talvez a mesma disposição com que Mari sustentou seus projetos ao longo da vida — sua persistência, seu compromisso, sua responsabilidade — pode ter dificultado o reconhecimento de sua própria vulnerabilidade. A mesma mulher que desenvolve uma compreensão coletiva do sofrimento parece em alguns momentos não incluir a si mesma nessa compreensão. Fiquei aliviada depois que li que que após alguns anos que saiu da fábrica considera-se bem de saúde de modo geral e com várias realizações em família.
Ao final da leitura, entendi que Mari não abandonou os valores que orientaram sua trajetória. Responsabilidade, solidariedade, compromisso, dignidade e respeito ao trabalho permanecem presentes do início ao fim da narrativa. O que muda é o horizonte a partir do qual esses valores são realizados. Ela passa a perceber que esses valores não se realizam espontaneamente, nem para si e nem para o coletivo. Eles exigem luta, organização e permanente defesa para que não sejam esmagados às exigências da produtividade e da acumulação de riqueza pelos detentores do capital. Riqueza produzida pelo trabalho e vida dos trabalhadores.



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