A mobilização da noção de biografia na psicoterapia existencialista
- Andréa Luiza da Silveira

- 10 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 10 de jan.

Compreender a nossa historicidade e nossas possibilidades e impossibilidades no passado e no futuro é um movimento fundamental que ocorre num processo psicoterapêutico conduzido por uma psicóloga existencialista. São necessárias algumas boas sessões até alcançarmos este momento. Trata-se de elaborações complexas ancoradas em análises simples. Mas, desde que feitas com precisão, como pede o fazer científico, têm a vocação de proporcionar a superação que buscamos.
Na Psicoterapia Existencialista operamos tanto a noção de biografia quanto a de futuro do passado para viabilizar a compreensão da historicidade do paciente. Essas noções nem sempre são nominadas. Do ponto de vista da psicoterapeuta, no entanto, estão subtendidas na medida em que estão contempladas por meio das descrições que propõe e das análises e sínteses decorrentes delas.
Todos nós temos uma história para contar. O processo psicoterapêutico também é um modo de contá-la. Os fragmentos biográficos registrados nas sessões de terapia auxiliam a psicoterapeuta a lembrar e relacionar situações descritas e analisadas em outras sessões, mediando o cliente de si para consigo, isto é, refletir criticamente. Do mesmo modo, o cliente leva para a vida o que elaborou em sua sessão de psicoterapia, selando a compreensão tendo em vista que é práxis. Neste sentido, novos modos de estar no mundo desvelam novas possibilidades. Novos modos de subjetivação alinham-se a novos modos de objetivação. Em suma, este movimento dialético presentificado, desdobra-se ao mesmo tempo em que a compreensão é vivida em toda sua carne.
Simone de Beauvoir (1908-1986), uma das inspirações para a psicoterapia clínica que desenvolvemos, sabia do poder da biografia. Justamente por isto, dedicou-se a autobiografia, sobretudo em: Memórias de uma moça bem-comportada, A força das coisas e A força da idade. Neste último livro contextualiza brilhantemente sua condição psicológica no contexto histórico da França. Deste modo aplicou a filosofia de Sartre, a qual adotava, no entendimento sobre a relação entre o antropológico e o psíquico.
Certamente havia dificuldades entre a autora de O segundo sexo e seu trabalho, seus amigos e amorosas. Ela já era madura enquanto escrevia A Força da Idade, havia passado por muitas coisas como mulher e notória escritora. No entanto, poucas coisas a abalavam a ponto de não conseguir trabalhar, escrever seu diário, divertir-se e apreciar uma viagem. Mas, após a Segunda Guerra, quando se esperava uma progressão dos ideais socialistas e libertárias a sociedade francesa opta pela política de direita e conservadora, que ainda flerta com o fascismo. Os nigerianos, ao lutarem por libertarem-se da colonização francesa, são oprimidos tanto na França quanto na Argélia. Esta situação a invade de asco. A escritora, que sempre deu ao ato de escrever uma função reparadora e plena de sentido, não encontra em sua pena a vitalidade de outrora. Às vezes sentia-se perdida e desencorajava-se. Mas, encontrava nos amigos e companheiros mediação para seguir no intento de realizar o mundo que aspirava, isto é, que a liberdade fosse posta em exercício por todos os indivíduos.
Dedicou-se arduamente a escrita visando o registro de uma época a partir de si mesma, de sua historicidade e experimentações. Ao narrar sua biografia Beauvoir nos ensina sobre a compreensão enquanto reflete sobre as mais diversas situações realizando o movimento que vai do particular ao universal, do analítico ao sintético, do regressivo ao progressivo. Assim, ela nos oportunizou desenvolvermos na prática clínica o movimento que ensaiou em sua vida e registrou em suas autobiografias. De mais a mais, inspirou biógrafos e romancistas, além das psicólogas e psicólogos existencialistas.
O passado é constituído de suas possibilidades mortas. Nossa investigação nos mostra isso, à exemplo de quando intuímos sobre as morti-possibilidades ao perguntarmos: e se eu tivesse feito isso ou aquilo, seria diferente? Muito embora seja uma pergunta sem resposta, ela nos auxilia a visarmos nossas possibilidades atuais. Diante delas, podemos agir de novo modo, igualmente, podemos nos subjetivas de uma nova maneira mesmo que limitados e condicionados historicamente e socialmente. A liberdade é sempre situada, por isso, é importante nos localizarmos perante a situação sempre singular, mas permeada pela universalidade.
Beauvoir, ao deparar-se com a racionalidade facista dos franceses que oprimem os nigerianos, sente-se nocauteada pela história. Sintoma disto é que o livro a ser escrito que antes aparecia-lhe como interessante e desafiador, passa a carecer de sentido. Esta experimentação singular ancora-se na universalidade do desenrolar histórico. Desse modo, não existe sofrimento psíquico descontextualizado.
A autora francesa, que ousa em falar sobre felicidade, encontra uma solução imediata. Ela destina seu tempo a militância política apoiada pelos seus amigos e companheiros. Passados os acontecimentos mais impactantes retorna a rotina, é preciso voltar. Ser escritora faz parte de sua essência.
Num processo psicoterapêutico compreendemos nossa dinâmica de personalidade. Os ciclos repetitivos que selaram nossas morti-possibilidades, isto é, aquelas escolhas constitutivas do sofrimento que nos assola e nos levou à psicoterapia. Assim como fez nossa autora, cuja biografia nos serviu de exemplo, analisamos nossa situação e condição psicológica. A partir daí, entendemos que, do mesmo modo que chegamos aonde chegamos, escolhendo diante do nosso campo dos possíveis, podemos seguir adiante, mas agora, utilizando o nosso desejo como bússola.
Dessa forma, notamos que a psicóloga existencialista mobiliza a biografia na sessão de psicoterapia não como destino, mas como modo de atualizar o desejo de ser.



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