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Por amor eu...

Atualizado: há 4 dias



- O que você está disposto a fazer por amor? 

- Por amor eu iria à lua, pegaria estrelas, me sacrificaria...

São tantas as frases utilizadas para expressar o quanto se ama. Para mim, elas manifestam a ilusão de que o amor poderia ser quantificado e, assim, medido, em vez de experimentado. Outra face dessa mesma ilusão é a exclusividade atribuída ao amor em seu modo de ser romântico, fazendo-nos crer que essa forma de amar seria a única capaz de conferir sentido à vida das pessoas.

Realmente a paixão, referência do amor-romantico, é uma experiência avassaladora. Nela, a pessoa amada torna-se o centro do desejo, fazendo desaparecer o tempo e o espaço. O mundo converte-se apenas em um cenário para a pessoa amada. É a magia da emoção, quando a pessoa amante vivencia, mesmo que por um segundo, todo o seu ser integrado ao da amada.

O amor-romantico revela que o amor ocorre nas relações concretas com o outro. No entanto, ele é uma das possibilides de amar, que permanece, mesmo ao considerarmos que o amor é um estado que envolve outros relacionamentos, além daquele típico de um casal.

O amor por toda a humanidade, por exemplo, pode traduzir-se em ações políticas de proteção às crianças e às mulheres vítimas de violência, às pessoas que sofrem com a fome, aos doentes que não acessam tratamentos de saúde e, até mesmo, na escolha por uma profissão que envolva o cuidado.

O amor pela humanidade, mesmo modo que o ódio por parte dela - como a misoginia, por exemplo -, produz consequências práticas nas relações sociais entre grupos de amigos, familiares ou casais. De qualquer forma, o amor pela humanidade, igualmente, se expressa em ações permeadas por determinados valores que se impactam, no fim das contas, nos coletivos humanos e nas relações pessoais.

Observa-se, de fato, que existem muitas possibilidades de amar. Mas há algo comum a todas elas: a construção do amor fundamenta-se na própria disposição para amar. Equivale dizer que aquele que ama estabelece propósitos para si mesmo, além de comprometer-se com o outro. Isto é, engaja-se em realizar o seu próprio desejo de ser mediado pelo outro, sempre em determinado contexto social e histórico.

Por exemplo, o desejo de ser uma pessoa leal, sedutora, calorosa ou versada em práticas sexuais precisa da outras pessoas que tenham propósitos similares para realizar-se. É por meio do outro, ou seja, por sua mediação, que a pessoa torna-se leal, sedutora, calorosa ou aquilo que aspira ser no campo amoroso.

Deste modo, o amante opera o desejo em seu projeto de ser. Projeto e desejo coerentes um ao outro, num movimento temporalizador que, sendo histórico e dialético, perpassa por experimentações totalizadoras, destotalizadoras e retotalizadoras. Tais experimentações ocorrem conosco em todos os perfis de nossa vida, seja o familiar, seja o trabalho, nas amizades e assim por diante.

Uma mulher, casada muito jovem, tinha dúvidas sobre a maternidade. Em um momento crítico, no qual precisou decidir-se, optou por engravidar. Deste então, o amor por um ser que ainda não existia foi, aos poucos, sendo vislumbrado como uma possibilidade, isto é, vivenciado no plano imaginário. Ser mãe, para ela, totalizar-se-ia neste amor. Quando o bebê nasce, esse amor destotaliza-se, pois torna-se concreto, e  retotaliza-se nos cuidados e afeto dedicado ao bebê.

Vou tentar mostrar este movimento temporalizador através da história ficcionada no filme Olhe o mar. O filme trata de uma situação extremamente difícil de forma leve e bem humorada. Um drama nada dramático.

Na narrativa, os personagens, no limite de sua situação ficcionada, transcendem o que tinham dado a si mesmos como possibilidades diante de um novo contexto familiar. São várias as cenas que mostram como os membros daquela família, aos poucos, se comprometem uns com os outros. Demonstrando, igualmente, como a comunicação e intimidade vão se constituindo.

Deste modo, as relações familiares, que estavam totalizadas em certos modos de ser, entram num processo de destotalização, viabilizando novas maneiras dos personagens conduzirem suas vidas. A última cena do filme, que ocorre entre pai e filho e tem como eixo a paixão do filho pelo mar, demonstra bem a retotalização do ser de cada um e da própria relação entre ambos. Nela, o amor é expresso pelo pai em atitudes muito concretas, nas quais ele medeia a realização do desejo de ser do filho, isto é, aquele que possui habilidades esportivas ligadas ao mar.

O amor entre duas pessoas envolve um desejo de construir intimidade. É por meio da intimidade, invariavelmente expressa em palavras, que duas pessoas se entendem, acertam ponteiros entre si, planejam suas vidas, alinham seus projetos de ser e compartilham seus horizontes.

No entanto, para que isto ocorra, ou seja, dispor-se a amar entregando seu ser em palavras e ouvindo o outro, a pessoa precisa estar razoavelmente localizada diante de si mesma, isto é, de sua história, sua dinâmica de ser e de seu campo dos possíveis. À vista disso, terá condições psicológicas para escolher agir e, assim, viabilizar-se no seu campo amoroso.

Nesse sentido, é preciso ouvir para compreender o desejo do outro. No filme Olhe o mar, o jovem foi ouvido pelos pais, esse processo se temporaliza à medida que os pais se ajustam para acolher e responder ao que o filho deseja. Neste caso, era a vida do filho que estava em questão, pois um acontecimento altera aspectos importantes das possibilidades de ele estar no mundo.  

A maioria dos dispositivos culturais consumidos massivamente, como os filmes, afirma valores que levam as pessoas a acreditar que devem priorizar o amor romântico-sexual. Somado a isso, o amor romântico-sexual é apresentado como uma vivência a dois, mágica, isto é, que parece ocorrer espontaneamente. Com efeito, na realidade, a magia ocorre e pode constituir uma vivencia profundamente bela. Mas, a essência da ação amorosa e realizadora não se reduz a magia. É, sobretudo, dispor-se a construir o relacionamento amoroso, como mostra o filme utilizado como exemplo.

A disposição para amar implica certas ações. Preservar a liberdade como livre vir a ser de cada pessoa envolvida no relacionamento amoroso é uma delas. As ações que compõem a disposição para amar exigem refletir sobre a adoção de certos valores: ser parceiro, ser fiel, ser sincero, entre outros.

No contexto psicoterapeutico, é importante lembrar que tais valores são eleitos pelos interessados. Nessa perspectiva, sessões conjuntas - seja com pessoas da família, amigos ou parceiro amoroso - podem contribuir, para o processo psicoterapêutico individual e vice-versa.

A psicoterapia individual facilita às sessões conjuntas, e estas, por sua vez, também favorecem a psicoterapia individual. À meu ver, esse tipo de engajamento revela a disposição para amar.

Isso porque, em um processo psicoterapêutico que envolve mais de uma pessoa - mãe e filha, um casal ou uma família -, contempla-se o que chamo de comunicação: a construção de um modo de se expressar, mas também de ouvir objetivando entender a narrativa do outro. Aliás, penso que é um comprometimento consigo e com o outro que exige desnudar-se diante da pessoa amada para manifestar seu desejo, construindo, simultaneamente, a disponibilidade para ouvir, a fim de compreender o desejo do outro

As sessões individuais promovem a preparação necessária para que as sessões conjuntas favoreçam o desenvolvimento da intimidade na vida cotidiana das pessoas. Neste sentido, encorajo as pessoas para conversarem. Contudo, são os próprios interessados que constroem a forma de fazê-lo, ao mesmo tempo em que estabelecem, entre si, a intimidade.

As sessões individuais viabilizam a localização da pessoa diante de sua história, de seu campo dos possíveis e, também, de seu sofrimento psíquico. A localização sobre a historicidade do sofrimento psíquico e da dificuldade em expressar-se - que podem estar vinculadas à falta de compreensão de sua própria condição psicológica – é crucial para que sessões conjuntas sejam proveitosas para todos os envolvidos.

Portanto, não há uma única forma de se expor ao outro; de ouvir; de modificar-se, se for preciso, para forjar o relacionamento amoroso entre familiares e entre parceiros. Existem diferentes maneiras de fazê-lo, assim, os envolvidos desenvolverão o seu próprio modo de se comunicar. Encontrarão as palavras que querem dizer e, também, a forma de acolher um ao outro.

Como afirmei anteriormente, o essencial é a disposição para amar, pois é ela que motivará as ações que viabilizam a concretização do amor. Afinal, o amor exterioriza-se, necessariamente, em ações muito concretas.

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© 2024 Andréa Luiza da Silveira

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