O sonhar na psicoterapia existencialista
- Andréa Luiza da Silveira

- 16 de abr.
- 4 min de leitura

No início da minha prática clínica eu considerava que a descrição dos sonhos, na maioria das vezes, não provoca mais do que um interesse passageiro: como se o relato onírico fosse uma narrativa absurda deslocada da vida concreta. Porém, com o tempo, alguns sonhos começaram a impor-se de modo diferente. Eles pareciam apresentar, sob a forma simbólica, uma experiência afetiva e um saber vivido que tinha a vocação de representar a constituição do sofrimento psíquico.
É precisamente este o problema que me interessa e que proponho refletir neste ensaio: de que modo afetividade e saber integram-se no sonho, tornando-se uma questão relevante em um processo psicoterapêutico de base existencialista, isto é, orientado pela obra de Jean-Paul Sartre, e na minha clínica, também em Simone de Beauvoir e Maurice Merleau-Ponty.
A questão acima não se dirige ao sonho como enigma a ser decifrado. Mas, de acordo ao entendimento de Sartre, volta-se ao sonho como expressão de uma consciência situada, isto é, comprometida com o mundo e atravessada por significações. Portanto, o sonho não se reduz à interpretação universalizante de símbolos.
Sustentando uma orientação existencialista no fazer clínico, costumo permitir que a narrativa do paciente se desenvolva livremente, intervindo apenas para que o projeto psicoterapêutico continue a se desdobrar naquela sessão. Assim, não costumava interromper os relatos oníricos, nem me preocupava em assinalar que, naquele momento, eu os considerava desnecessários ou periféricos. Permitia que fossem ditos. Talvez porque, ainda que eu não soubesse exatamente o que fazer com tais narrativas, reconhecia nelas uma insistência: o paciente queria falar daquele sonho, queria oferecer aquele material como parte de sua história.
Foi então que comecei a pensar o sonho com maior acuidade, inspirando-me na leitura dos livros A Imaginação, O imaginário e o Idiota da Família de Jean-Paul Sartre. Sartre dedicou grande parte de sua produção filosófica e psicológica ao problema da imagem, da imaginação e do imaginário. Contudo, foi em A imaginação (2013) que investigou como a imagem foi compreendida pela filosofia e pela psicologia, apontando um equívoco recorrente e persistente, segundo o qual a imagem seria uma espécie de réplica enfraquecida do mundo material no interior da “mente” humana que Sartre denominou de metafísica ingênua da imagem. Demarcou, que ao contrário, a imagem é um modo de ser da consciência intencionalmente ligada a um objeto irreal, no caso que nos interessa, as imagens do sonho.
Sartre avança, no seu livro O imaginário para uma descrição fenomenológica própria da estrutura da imagem. Assim evidenciou que a imagem é um modo de ser da consciência, isto é, não há uma coisa contida nela — superando definitivamente a metafísica ingênua. A partir dessa constatação, o filósofo francês desenvolveu uma compreensão mais ampla da dinâmica da vida imaginária. No seu livro O idiota da família mobiliza a sua teoria psicológica, igualmente, seu entendimento sobre a imaginação para compreender e analisar a constituição da personalidade, ou seja, personalização do seu biografado, o romancista Gustave Flaubert.
O sonho pertence à família da imagem (retrato, mancha na parede, imagem mental, alucinação), constituído pela afetividade e pelo saber. Deste modo, Sartre nos permite considerar que o sonho pode revelar uma forma de experiência em que a consciência é organizada simbolicamente mediante a relação do sonhador com o tempo, com o corpo, com o outro e com o mundo, revelando matizes do sofrimento que o acomete. O sonho, então, é mais uma expressão viva do projeto do cliente.
É por isso que, mesmo partindo de uma posição inicialmente indiferente aos sonhos, fui conduzida pela própria clínica a reconsiderar seu lugar. Pois, alguns sonhos mostraram-se como acontecimentos simbólicos em que o sonhador viveu certo saber e certa afetividade, que poderão ser conhecidos deste que se reflita sobre eles.
No seu livro autobiográfico Balanço final, Simone de Beauvoir se refere ao sonho: “Gosto de seu caráter imprevisto e sobretudo de sua gratuidade. Situam-se em minha história, florescem em meu passado, mas não se prolongam no futuro: esqueço-os.” (Beauvoir, 2021, p. 108) Os sonhos descritos foram registrados entre 1969 e 1971. Aponta os temas constantes, viagens, paisagens, Sartre e os amigos. Ao meu ver, alguns deles poderiam auxiliar num processo psicoterapêutico, como por exemplo, ela reflete sobre sonhos que teve com Sartre:
Permanentemente, durante a noite, Sartre foi para mim ora o companheiro que faz parte de minha vida, ora um homem de coração empedernido que minhas críticas ou minhas súplicas, minhas lágrimas, meus desfalecimentos deixam indiferente; evidentemente, é minha posição horizontal que me sugere o desfalecimento; e aqui também é com uma certa distância que sofro com a atitude de Sartre; ela tem algo de implacável e de irreal, como se eu desenvolvesse uma hipótese: supondo que ele não se importasse comigo, qual seria minha reação? Até onde poderiam ir as coisas?
De fato, a indiferença vivida nestes sonhos não as encontrava em Sartre, seu companheiro, em vigília era cúmplice e atento. Mas, ela sabia o que era indiferença. Nós, no entanto, não sabemos se ela tinha medo de que ele se tornasse indiferente a ela. Efetivamente, após esse tipo de sonho, acordava angustiada e parava para pensar: se fosse real qual seria minha reação?
Neste sentido, o sonho, pode ser uma via privilegiada para compreender a estrutura afetiva do sofrimento e o saber existencial que o acompanha. E é nesse ponto que ele se torna, efetivamente, uma questão relevante para a psicoterapia existencialista: não como chave interpretativa, mas como acontecimento imaginário que revela o modo singular do sonhador, nosso cliente, estar no mundo.



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